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Ode à autonomia do inconsciente: o encontro entre Bruxo Lin, Jó, Coringa e a rua.


Autora: Mariane Marques Santos Amaral


“Minha alma sussurrou-me insistentemente e medrosamente: Palavras, palavras não faças palavras demais. Cala-te e escuta: Tu reconheceste tua loucura e a admites? Vistes que todas as suas profundezas estão cheias de loucura? Não queres reconhecer tua loucura e dar-lhe amáveis boas-vindas? Tu querias certa vez aceitar tudo. Aceita então também a loucura. Deixa que brilhe a luz de tua loucura, e deverá nascer para ti uma grande luz. Não se deve desprezar nem temer a loucura, mas deve dar-lhe a vida” (Jung, 2010, p. 106/108).

Durante o período em que estive no curso de Psicologia Analítica algo em mim encontrou-se com algo em Bruxo Lin. Na ocasião, trabalhava como apoiadora institucional tanto dos Serviços Residenciais Terapêuticos (SRT), como do CAPS III Jael Patrício de Lima, serviços da Rede de Atenção Psicossocial (REAPS) da Secretaria Municipal de Saúde de Aracaju. Nesse interim, chegou até a REAPS a incumbência de responder solicitação do Ministério Público de inserção de Bruxo Lin em uma das Residências Terapêuticas do município, já que não teria nenhum familiar que pudesse ser legalmente responsabilizado por seu cuidado.

Nossa (re)aproximação começou nesse contexto. Fui então, junto com uma colega, visitá-lo numa clínica psiquiátrica onde se encontrava já há alguns meses, na verdade há quase um ano. Encontramo-lo em pé, imóvel, de frente para um muro, descalço, de costas para todos, segurando um saco preto. Apesar de termos sido alertadas para ter cuidado, diante de sua hostilidade, fomos muito bem recebidas. Sentamos os três em um banco próximo, Bruxo Lin não demorou em pedir para que entrássemos em contato com seu primo de segundo grau, para tirá-lo de lá, já que estava sofrendo maus tratos e estava sem roupas e sandália. Quando perguntado sobre planos para sua vida, respondeu que gostaria de morar sozinho, em alguma casa alugada por seu primo-sobrinho (que não tinha o menor interesse em realizar tal feito). Combinamos de entrar em contato com seu parente, falando-lhe de suas solicitações. Além disso, informamos que de nossa parte, no momento, só conseguiríamos tirá-lo de

lá se fosse pra conduzi-lo ao Acolhimento Noturno do CAPS e que só faríamos isso se fosse de seu desejo.

Em ligação, seu primo-sobrinho insistiu que não tinha mais nada a ver com o caso, que a única solução para Bruxo Lin era arranjar um lugar onde pudesse ficar preso para sempre, pois tratava-se de um psicopata de dupla personalidade com pacto com o demônio. Não haviam outros parentes que pudéssemos acessar a fim de agenciar seus desejos, o Ministério Público inclusive foi enfático nesse ponto. Queria muito abrir as portas daquele lugar e deixá-lo sair. Senti pulsar as conexões anteriores com Bruxo Lin. Na adolescência, no final da década de 90, o conheci num grupo de oração de uma igreja católica. Chamava atenção sua esquisitice, usava camisas longas de cetim de cores fortes, tinha um constante cheiro de suor, falava alto em momentos ditos inadequados, tinha um olhar atravessador estranho e retribuía com um sorriso largo a alguns que o tratavam com atenção. Em 2005 voltei a encontrá-lo, dessa vez no CAPS III Liberdade, na Oficina de Criação, então campo de estágio do curso de Psicologia da UFS. Nesse sentido, vale ressaltar, que o terceiro encontro com Bruxo Lin veio cheio de afetos anteriores.

Iniciamos então um plano de intervenção, já que simplesmente abrir a porta da clínica psiquiátrica não era uma possibilidade. Seria realmente possível nesse momento o aluguel de uma casa para morar sozinho? O que vem junto com esse pedido? Havia uma vaga disponível para Bruxo Lin na Residência Terapêutica do bairro Augusto Franco. Será que Bruxo Lin toparia aterrissar, ainda que provisoriamente, nesse território desconhecido? Resolvemos tentar. Combinamos com equipe do CAPS David Capistrano, referência para o bairro Augusto Franco, de realizar visitas a Bruxo Lin na clínica psiquiátrica para vinculação. Um dos técnicos que se dispôs a fazê-lo já o conhecia da época em que era acompanhado no CAPS III Liberdade. Sabíamos das dificuldades nessa empreitada, já que a zona norte de Aracaju sempre foi o território de vida de Bruxo Lin, sendo o último CAPS a acompanhá-lo o CAPS III Jael Patrício de Lima, situado no Bairro Cidade Nova. Começamos a preparar também a equipe da RT para possível chegada de um novo morador.

Realizadas algumas visitas, foi percebida alguma abertura de Bruxo Lin em deixar a clínica e ir ao CAPS David Capistrano, muito mais como forma de se livrar do lugar onde

estava, do que de ter no CAPS um espaço em que quisesse de fato estar. Em janeiro de 2019, alguns gestores e trabalhadores da cínica estavam cientes de que na próxima visita já iríamos como transporte do CAPS para levá-lo. Eis que fomos surpreendidos com a informação de que Bruxo Lin havia saído de alta da clínica em companhia de sua esposa, que chamaremos aqui de Amina. Tratava-se da mãe de suas duas filhas, que durante sua internação sempre ia visitá-lo, mantendo-o minimamente conectado com a realidade externa. Parece que foram se aproximando como casal, ao ponto de Amina, que também era acompanhada pelo CAPS Jael Patrício, ter conseguido se apresentar muito bem na clínica para poder conseguir tirá-lo de lá.

Diante do ocorrido, fomos a casa de Amina. Estava com olhar distante, parecendo não entender o que dizíamos. Respondia com monossílabos nossas poucas perguntas. Levantou-se para mostrar que suas medicações já tinham acabado, que só tinha o xarope (estabilizador de humor), que tomava quando lembrava. Nem se mexeu quando perguntamos sobre Bruxo Lin. De alguma forma sentiu-se cuidada, pois aceitou que a pegássemos com o transporte do CAPS para voltar a frequentá-lo e passar por uma nova avaliação psiquiátrica. Após uma semana, no dia e hora combinados estava na porta de casa, arrumada, a nossa espera. Nessa ocasião mencionou que Bruxo Lin estava hostil, nada mais. Essa afirmação confirmou a hipótese de que ainda estavam mantendo contato. Além disso, sabíamos que ele estava andando pelas ruas da Zona Norte, catando objetos que colocava em seu precioso saco.

Após aproximadamente vinte dias de nossa primeira visita, Amina entrou esbaforida no CAPS Jael Patrício, arrastando Bruxo Lin pelo braço. “Resolvi confiar em vocês, trouxe ele pra vocês cuidarem” (SIC). Bruxo Lin estava física e emocionalmente esgotado, tinha andado até o município de Estância-SE, onde foi encontrado desacordado, segundo Amina. Falou ainda, dirigindo-se a Bruxo Lin: “você vai ficar aqui até o dia que ela (eu, Mariane) disser”, o que foi prontamente aceito com um aceno de cabeça. Não fiquei confortável, mas entendi a importância daquele momento.

À medida que Bruxo Lin foi se fortalecendo fisicamente, começava a mostrar seu mundo interno, através de sua fala, posturas corporais e produções artísticas. Abordá-lo era quase sempre difícil, quando respondia, dizia que estava bem e poucos minutos depois pedia licença e saia. Ficava longos períodos em locais mais isolados do CAPS, com

o saco numa mão e algum livro em outra, muitas vezes em pé. Dificilmente tomava banho. No início, quando Amina chegava, trocavam longos beijos de língua, e faziam planos de morarem juntos após sua alta. Com o tempo algo na relação deles foi mudando e distanciaram-se.

Quando me aproximava costumava revezar dois movimentos, um era o de questioná-lo sobre os planos para sua vida, contar o que estavam discutindo sobre ele nas audiências no Ministério Público, tentando conectá-lo à realidade compartilhada. Outro movimento era o de estar disponível para acolher (conversando ou estando apenas por perto) seu mundo subjetivo, neologismos, sacos intocáveis, rituais, produções. Importante dizer que tal manejo, à medida que o tempo passava, ficava cada vez mais atravessado pelos olhares da Psicologia Analítica que em mim iam habitando. Tal como Jung já chamava atenção (JUNG, 1982, p.322), fui percebendo, em minha relação com Bruxo Lin, que muito mais forte do que minhas frágeis palavras era a coisa que eu era. Bruxo Lin era impregnado pelo que eu era – pelo meu ser real – e muitas vezes prestava pouca atenção ao que dizia.

Estava construindo com Bruxo Lin uma relação clínico-institucional, que tinha um objetivo terapêutico. Por outro lado, o lugar que eu também ocupava era o de Secretaria de Saúde prestando conta ao Ministério Público e sabia que precisava cuidar da coexistência desses dois lugares. Algumas pistas deixadas por Jung foram importantes nessa tarefa, no sentido de total respeito à singularidade que ia se apresentando e muito cuidado com qualquer exercício tentador de poder dentro do contexto de uma relação assimétrica. A esse respeito Jung (2013, p.3) diz:

[...] não tenho condições de julgar a totalidade da personalidade que está lá à minha frente. Posso fazer declarações legítimas apenas a respeito do ser humano genérico, ou pelo menos relativamente genérico. Mas, como tudo o que vive só é encontrado na forma individual, e visto que só posso afirmar sobre a individualidade de outrem, o que encontro em minha própria individualidade, corro o risco, ou de violentar o outro, ou de sucumbir por minha vez ao seu poder de persuasão. Por isso, quer eu queria quer não, se eu estiver disposto a fazer o tratamento psíquico de um indivíduo, tenho que renunciar a minha superioridade no saber, a toda e qualquer autoridade e vontade de influenciar. Tenho que optar necessariamente por um método dialético, que consiste em confrontar as averiguações mútuas. Mas isto só se torna possível se eu deixar ao outro a oportunidade de apresentar seu material o mais completamente possível, sem limitá-lo pelos meus pressupostos. Ao colocar-nos dessa forma, o sistema dele se relaciona com o meu, pelo que se produz um efeito dentro do meu próprio sistema. Este efeito é a única coisa que posso oferecer ao meu paciente, individual e legitimamente.

Feitas essas observações a respeito do método dialético junguiano, no qual sempre o fenômeno que emerge na relação terapêutica deverá ser considerado como singular e mais importante do que qualquer conceito ou técnica que tenha pretensão de capturá-lo, faz-se necessário, antes de continuar a escrita sobre os encontros com Bruce Lin, explanar um pouco sobre como Jung entendia esse todo consciente-inconsciente que forma a psique.

De acordo com Jung, (2014, P.280), “nossa consciência desenvolveu-se tanto histórica como individualmente a partir da escuridão ou do estado crepuscular da inconsciência originária. Havia funções e processos psíquicos bem antes de existir uma consciência do eu”, o que indica, portanto, ser de suma importância o conhecimento do funcionamento do inconsciente.

No livro “O homem e seus símbolos”, Jung (2008) explica que a psique pode ser comparada a uma esfera, com uma zona brilhante em sua superfície que representaria a consciência, sendo o ego (eu) o centro dessa zona. A consciência é uma sucessão de imagens sem rupturas, apresenta certa coesão, continuidade, controle de atividade e capacidade de reflexão. Ela quem faz a articulação de um objeto ou conteúdo ao eu. O conteúdo dessa esfera que não está sob a luz da consciência, seria o inconsciente. Conforme explica Jesuíno (2008), no inconsciente existem conteúdos que já foram conscientes e desceram a um nível subliminar de tensão; conteúdos que foram reprimidos pela ação do eu, conteúdos advindos da própria criatividade do inconsciente e que nunca atingiram o limiar da consciência e uma porção hipotética que atua como condição formativa da alma em geral (inconsciente coletivo). Já o self seria ao mesmo tempo o núcleo e a esfera inteira, formando um todo consciente-inconsciente.

Uma camada mais ou menos superficial do inconsciente é pessoal e repousa sobre uma camada mais profunda, que não tem sua origem em experiências ou aquisições pessoais, sendo inata. Esta camada mais profunda é o inconsciente coletivo, sendo assim chamado pelo fato de o inconsciente ser de natureza universal, já que possui conteúdos e modos de comportamento, os quais são os mesmos em todos os lugares e em todos os indivíduos, “constituindo portanto um substrato psíquico comum de natureza psíquica suprapessoal que existe em cada indivíduo” (JUNG, 2014, p. 14).

Nesse sentido, Jung amplia o conceito de inconsciente, que em Freud limitava-se a designar o estado dos conteúdos reprimidos ou esquecidos, de origem sexual ou carregados de agressividade, espécie de restos da consciência. Para Jung (Ibidem, p.14), “os conteúdos do inconsciente pessoal são principalmente os complexos de tonalidade emocional, que constituem a intimidade pessoal da vida anímica. Os conteúdos do inconsciente coletivo, por outro lado, são chamados arquétipos”.

Jung (2008) define arquétipo como imagens simbólicas primordiais. Explica que os seres humanos possuem uma tendência instintiva de formar representações próximas de um motivo sem perder a sua configuração original. Essas imagens coletivas têm um conteúdo muito valioso, já que estão sendo construídas desde eras primitivas quando a psique do homem e do animal ainda andavam juntas. Podem ser percebidas em qualquer época e em qualquer lugar do mundo.

A psique não é um simples derivado de processos fisiológicos, mas uma realidade real e imediata. Constitui um mecanismo resultante da adaptação do homem, que do mesmo jeito que herda um corpo caracteristicamente humano, também herda o potencial psíquico de produção de imagens. E aqui entendemos imagem tal como descreve Jesuíno (2008), sob influência do pensamento junguiano: como uma unidade funcional formada por componentes racional, perceptivo e de tonalidade afetiva (que envolve aspectos psíquico e somáticos). As imagens articulam-se entre si e quando formam uma tonalidade afetiva específica, define-se um complexo.

Qualquer experiência de nossa vida é capaz de constelar a tonalidade afetiva de um determinado complexo. Assim que isso acontece é comum perceber tanto uma despotencialização do complexo do eu, como reações exacerbadas, que podem atuar de modo impetuoso no controle de nossos pensamentos e comportamentos. “Quando determinada situação constela um complexo, este tem sua tensão aumentada e pode ultrapassar esse limiar (da consciência) e, consequentemente, invadir a consciência provocando-lhe uma cisão, na qual o eu é temporariamente posto de lado ou limitado em sua função”. Como efeito desse processo aparecem sonhos, devaneios, lapsos, histeria e até mesmo psicose (Ibidem, p.109).

A autonomia do inconsciente, nesse sentido, não se relaciona a um processo necessariamente patológico, mas que diz respeito a psicodinâmica de qualquer pessoa

saudável. Assim, as manifestações autônomas do inconsciente com as quais o eu se defronta, e que normalmente se apresentam de forma arcaica e projetados no meio, são “delírios do complexo”, que acontecem, portanto, em situações onde não há esquizofrenia.

Em “Psicogênese das Doenças Mentais” Jung (1990) faz analogia do sonho com o delírio, espécie de sonho em vigília. Tanto um como outro seriam manifestações imagéticas de um complexo apresentado. Ambos podem ser interpretados a partir do contexto da história pessoal e do arranjo dinâmico de sua personalidade. Os sonhos apresentam imagens muito mais quotidianas que o delírio psicótico e há um predomínio do aspecto pessoal no sonho, salvo alguns “grandes sonhos” que as sociedades primitivas já conferiam atenção especial, tidos como os sonhos arquetípicos ou mitológicos. A diferença mais marcante entre ambos é que no delírio há um conjunto de imagens inconscientes que objetificam o eu, cujo conteúdo arcaico, arquetípico, não se integra à personalidade consciente, preservando sua dissociação.

Na psicose a função psíquica superior, adaptativa, perde suas características. Por ação do afeto patológico, há a desintegração significativa da função de realidade. O eu situa-se num mundo novo e diferente, projetado para fora de si mesmo, pois é incapaz de ser assimilado. Como diz Jung (1999, p.225):

[...] a totalidade psíquica se fragmenta em vários complexos e o complexo do eu deixa de desempenhar o papel principal, tornando-se apenas um dentre outros de igual importância ou ainda mais importantes. Todos esses complexos se revestem de uma personalidade, embora permaneçam fragmentos.

Nesse sentido, é importante que a consciência tenha capacidade de perceber e confrontar o material irracional, arquetípico, sem perder de vista sua orientação geral, sem se identificar com ele. A identificação com o inconsciente dissocia a personalidade empírica, isso ocorre quando o eu não tem a estrutura necessária para confrontar o material caótico do inconsciente, culminando na desintegração da personalidade. Assim:

A assimilação do inconsciente protege contra o perigoso isolamento que sente todo aquele que se vê frente a frente com uma porção incompreensível e irracional de sua personalidade. Pois o isolamento leva ao pânico e, com isso, tão frequentemente começa a psicose. Quanto mais se alarga a brecha entre consciente e inconsciente, tanto mais iminente a cisão da personalidade que no indivíduo com tendência neurótica leva à neurose, naquele com predisposição psicótica leva à esquizofrenia, à cisão da personalidade” (Jung, 1995, p.685).

Acrescentamos ainda, como bem lembra Jesuíno (2008), que o delírio tem base no histórico do indivíduo, no seu desenvolvimento. Entretanto, a Psicologia Analítica não se restringe a essa análise retrospectiva. O papel do inconsciente como produção, como propulsor, faz com que entendamos o caráter compensatório do delírio, que o situemos como caminho para a realização de algo. Em outras palavras, “a colaboração do inconsciente é sábia e orientada para a meta, e mesmo quando se comporta em oposição à consciência, sua expressão é sempre compensatória de um modo inteligente, como se estivesse tentando recuperar o equilíbrio perdido” (Jung, 2014, p. 281).

Feita essa explanação acerca do funcionamento do arranjo psíquico dentro do contexto da Psicologia Analítica, com um destaque para os processos de autonomia do inconsciente no âmbito da psicose, gostaria de voltar a falar de Bruxe Lin, que já estava há quase três meses no acolhimento noturno do CAPS III Jael Patrício. Seguia dia após dia colocando sorrateiramente (ou não) objetos que encontrava no CAPS em seu saco, parece que esses se conectavam com algo de seu complexo mundo interno. Embora muitas vezes hostil e isolado, demonstrava se conectar com o mundo externo também na relação que estabelecia com alguns enfermeiros. Gostava quando um deles cortava seus cabelos e participava esporadicamente de algumas oficinas expressivas. Ora dizia que estava ótimo no CAPS, ora falava que “já viu passarinho gostar de ficar preso?”.

Nunca pediu para sair do CAPS ou tentou fugir. O assunto sobre a saída do CAPS era quase sempre algo puxado por mim. Insistia em dizer que sabia cuidar de si e moraria sozinho. Expliquei que a Residência Terapêutica poderia ser algo provisório, mas ainda assim dizia que “Residência Terapêutica é coisa de retardado” e que não era ninguém da família dele para conversar sobre esse assunto, que precisaria chamar seu sobrinho (espécie de “mãe substituta” da genitora já falecida). Todas as observações muito coerentes. Como tal parente já tinha informado explicitamente sobre o desinteresse em acompanhar o tio (primo de segundo grau), solicitei que o Ministério Público me auxiliar na promoção de um encontro entre tio e sobrinho-mãe, para que este último pudesse ajudá-lo, despedindo-se, ao tempo que também apresentava e validava possíveis novos vínculos. Assim foi feito, seu sobrinho explicou que não poderia mais acompanhá-lo e solicitou que conhecesse a Residência Terapêutica.

Durante esse processo, vale destacar que Bruxo Lin seguiu cultuando no CAPS Deus e o diabo, esse último principalmente às madrugadas. Era comum vê-lo construindo altares. Segundo texto de Nise da Silveira no filme Imagem do Inconsciente (1988), rituais são recursos inconscientes de defesa, constituem represas para conter os impulsos do inconsciente. Os mesmos procedimentos são postos em ação pelo homem primitivo sempre que situações psíquicas de ameaçadora desordem aparecem. Os rituais tendem aproximar os opostos evitando sua violenta colisão.

Cerca de vinte dias antes da conversa com o sobrinho, desenhou em uma das paredes do CAPS um lindo altar (Figuras 1, 2 e 3), onde foi visto algumas vezes fazendo suas invocações. Pedi que me falasse sobre seu desenho, o que fez com muita alegria. Contou que é embaixador de Bruce Lin, mais conhecido como Bruxo Lin e este ensinava artes marciais. Fez relação de seu desenho com os cinco livros de São Cipriano e com a bruxaria do pai Japão e da China; falou de poder, magia, conquista e encanto. Depois da morte de Bruce Lin, relatou que os livros viraram os cinco budas. Em relação às estrelas do desenho, fez uma sequência de conexões: sete de setembro; nascimento de cada nação; nascimento de encarnação; nascimento do dia; nascimento do sol 6h da manhã; “enclarações”. Quando falou da abertura existente em uma das estrelas maiores, fez outra sequência de significados: serpente; São Cipriano; sagrado chinês/japonês; profundezas dos oceanos.

Nise da Silveira (1988) chegou a explanar sobre o aspecto cósmico das imagens arquetípicas, isto é, um laço interno que associa as figuras dos sonhos e da imaginação a acontecimentos cósmicos, analogias telúricas, lunares ou solares. A presença de astros é comum no delírio de psicóticos e em sua produção artística. Mergulhados no inconsciente, voltam àquilo que eram antes, uma unidade com a mãe, ou seja, com a totalidade universal. Importante dizer que mesmo quando a personalidade se dissocia, é possível perceber nos desenhos de pessoas delirantes novos insights na vida psíquica, uma pulsão criadora. Silveira (Ibidem) explica que nessas pinturas, através por exemplo de formas circulares (mandalas), forças instintivas autocurativas da psique, que se opõem ao caos, são acionadas e há um esboço de projetos de renovação.

Precisaríamos talvez de uma sequência de mais imagens para compreender melhor a produção artística de Bruxo Lin. O que podemos dizer é que a imensa alegria

com que falava sobre suas estrelas e formas circulares nos dava pistas de que aquela expressão lhe fazia bem e de que novos “nascimentos” ou “enclarações” em seu mundo psíquico poderiam estar se desenhando. Os livros de magia de São Cipriano que evocam o demônio viram budas. O mal e o sagrado conseguem conviver em seu desenho, integrados. Além disso, se há alguma relação, não sabemos, mas o encontro subjetivo com a “grande mãe universo”, precedeu em alguns dias o encontro com o “sobrinho-mãe”. Parece que a bênção da “mãe subjetiva” foi necessária para o movimento que iria fazer. Depois de dois dias da conversa aterradora com o “sobrinho-mãe”, aceitou conhecer a Residência Terapêutica. No mesmo dia que foi visitá-la, disse que já iria morar lá.

Bruxo Lin ganhou um quarto só para ele, o relacionamento com os demais moradores e com os cuidadores nem sempre tem sido amistoso. Seus gritos e evocações demoníacas costumam assustar. Às vezes diz que estão roubando suas coisas e ameaça alguns de morte. Aproximadamente um mês depois de ter se mudado com seus sacos, ficou bastante agitado e seu “sobrinho-mãe” foi acionado para novo aterramento. Mostrou-lhe a casa orgulhoso, demonstrando um início de pertencimento. Foi fazendo de seu quarto, muitas vezes, algo como uma “caixa de areia”, escolhendo alguns cantos para dispor seus objetos (garrafas com roupas e água, cartas, peças de dominó, calcinhas, estrelas de EVA, saboneteira, colher, apito e tantos outros). Arrumava-os em posições diferentes, conforme os dias passavam, e às vezes deixava-os todos dentro dos sacos.

A primeira vez que falou de seus objetos (Figura 4) explicou que eram “puras coisas japonesas e chinesas criativas”, “presentes do pai Jacó e da China”. Mencionou algo a respeito tanto da união íntima entre todas as nações pela paz, como os banhos puros que aconteciam nas naves espaciais. Com o passar do tempo algo inédito passou a acontecer, nos dias de Bruxo Lin ir ao CAPS, passou a deixar seus sacos (espécie de extensão de si) em casa.

Havia vinte dias que não encontrava Bruxo Lin. Sabia que em alguns momentos estava recusando o almoço, seu último banho havia sido no CAPS há sete dias, continuava relativamente isolado e seus rituais sombrios continuavam a assustar os cuidadores. Subi as escadas em direção ao seu quarto e bati na porta. Para minha

surpresa ele saiu do banheiro ao lado, segurando o livro “O que a bíblia realmente ensina?”, disse que estava rezando.

Perguntei se podia entrar, ele puxou a cadeira do quarto para que sentasse. As perguntas sobre como estava, o que estava achando da Residência Terapêutica, do almoço, dos CAPS, foram respondidas com palavras curtas, artificiais e sorriso falso. Perguntei sobre ter jogado parte do conteúdo dos sacos fora, ele disse que as roupas dentro das garrafas com água eram de sua mãe, falecida há 40 anos (na verdade há aproximadamente quatro anos), que guardava de lembrança, mas não precisava mais guardar. Não quis render o assunto. Perguntei sobre o livro que estava lendo, ele me entregou prontamente, mostrando-me o capítulo que mais gostava, que tratava da história de Jó. Pedi que lesse para mim. Na leitura o vi inteiro, pronunciando as palavras Deus e satanás com igual empolgação. Lia alto, a mesma entonação. Fiz pergunta clichê de psicóloga: “tem alguma coisa da história de Jó que parece com a sua?”. “Sim, a doença”. Novamente não rendeu muito a conversa e pediu que eu comprasse outro livro igual para dar para ele, mencionando que os crentes vendiam nos pontos de ônibus.

Diante da impossibilidade de continuidade de nossa conexão via discurso, eis que a imagem de Jó se conectou aparentemente sem explicação (intuitivamente?) à imagem da carta do baralho do coringa que lembrava que Bruce Lin parecia ter grande apreço. Perguntei se ainda tinha a carta do coringa, imediatamente levantou-se e iniciou uma busca em seus inúmeros sacos, dando-me acesso a alguns de seus conteúdos intocáveis. Depois de muita procura, achou a carta dentro de um envelope que estava dentro de um saco, dentro de outro saco. Mostrou-me alegre o coringa e outras três cartas. Puxei um papo sobre o simbolismo do coringa, algo sobre ele ser do bem e do mal, opostos complementares (na hora nem me dei conta que esse mesmo conteúdo estava afinado com o da história de Jó). O discurso não vingou novamente. Perguntei o que ele gostaria de fazer com as cartas. Respondeu que queria muito adquirir as outras cartas do baralho. Sugeri que saíssemos a procura de um baralho completo em alguma loja do bairro onde estávamos, que ele até então não conhecia. Falou que tinha por mim profundo respeito e disse que queria que eu fosse sua auxiliar. Depois pediu que esperasse ele tomar banho (o que não fazia há dias) para que saíssemos. Cuidadora propôs que aproveitássemos para encontrar um salão para contar seus cabelos, o que

foi prontamente aceito. Saímos os três a pé, sem saber ao certo aonde o coringa iria nos levar, entramos em lojas e salões. Encontramos seu baralho de náilon e um cabelereiro de dezesseis anos fã de Bruce Lee, o que rendeu bons papos durante o corte de seus cabelos grisalhos. Quando me despedi falou: “Deus te abençoe e que Nossa Senhora te acompanhe!”. Foi assim que aconteceu o encontro entre Bruxo Lin, Jó, coringa e a rua.

Com esse encontro vivi a máxima escutada várias vezes no Curso de Psicologia Analítica: “a imagem é mais importante que o discurso”. Provavelmente tenha experenciado isso outras vezes, mas sem me dar conta. É como se a frase de Lopez-Pedraza (1999, p.31) “a Psicoterapia é como um laboratório de imagens conduzido pela habilidade artesanal de um psicoterapeuta e por sua capacidade de gerar imagens” tivesse de repente ganhado um sentido que antes não tinha.

O que está em jogo não é a imagem física, mas a subjetiva, as projeções e conversas de Bruxo Lin com suas imagens internalizadas. Quando o foco está na interpretação, o discurso sempre será prioritário. Se mudamos as lentes, focando agora na análise, não haverá motivo de transformar necessariamente toda imagem em discurso. O interesse será em entender a relação das imagens, a vida delas, o que elas fazem. De acordo com Jung (2000, p.92), “não são as tempestades, não são os trovões e relâmpagos, nem a chuva e as nuvens que se fixam como imagens na alma, mas as fantasias causadas pelos afetos”.

Parece que com Bruxo Lin houve uma mobilização afetiva de algumas de suas imagens subjetivas, ajudando-o na vivência da realidade empírica por parte do complexo do eu. Os conteúdos arquetípicos (nesse caso a luta entre bem e mal) permitem à consciência o contato com a energia renovadora dos instintos, pois eles são as forças ou aspectos dinâmicos, que permitem à consciência encontrar nas visões das imagens coletivas o montante energético para adaptação. Na psicose, por sua vez, é comum acontecer que as pessoas sejam simplesmente destroçadas pelo arquétipo, sem que possam resistir. De acordo com Jesuíno (2008, p. 137):

Quando a vida impõe suas exigências, de acordo com o processo da adaptação, não há saída para a expansão da personalidade empírica senão pela integração dos conteúdos inconscientes. Trata-se do processo de individuação, da realização progressiva da totalidade psíquica por via da ação simbólica. No processo normal, o eu é via de realização do sujeito psicológico amplo, o complexo do si-mesmo. A

psicose rompe essa relação, pois a compensação não estabelece uma via para a assimilação de energia inconsciente pelo órgão adaptativo.

O contato com Bruxo Lin deu pistas de que seu processo de individuação segue por caminhos difíceis, porém com algumas brechas possíveis. De antemão o próprio material do delírio dá a dica de quais conteúdos, quais complexos constelados, precisam ser integrados. De acordo com o mesmo autor (Ibidem), abordar apenas a “parte saudável” da vida poderá agravar a separação entre o eu e o inconsciente. É importante que a pessoa seja capaz de expressar, de alguma forma, o material do delírio. Isso diminuirá a tensão e restringirá a ação do complexo patológico, visto que o eu conseguirá, de forma tímida, expressá-lo em imagem diferenciada, o que parece ter acontecido brevemente com Bruxo Lin.

Por fim, que venham muitos (des) encontros nas experiências de Bruxo Lin. Que os encontros intermediados pelos CAPS que o acompanha e pela Residência Terapêutica onde mora atualmente possam acolher a vida de suas imagens. Que esses encontros mobilizem afetivamente a força autocurativa de sua totalidade psíquica, impulsionando articulações entre o complexo do eu e demais complexos fragmentados. Quando isso não for possível, que as pessoas com quem convive possam acolher a autonomia de seu inconsciente e sua personalidade fragmentada. Que os riscos de novas institucionalizações e aprisionamentos possam sempre ser vislumbrados. É o que deseja a auxiliar de Bruxo Lin, o espadachim puro artista.

Bibliografia

Imagens do Inconsciente (filme). Direção: HIRSZMAN, L., Produção: Buss, J. e Guimarães, L. F. Baseado em texto de Nise da Silveira. Rio de Janeiro: Leon Hirszman Produções, 1988.

JESUÍNO, F. de M. O Delírio Paranoico no Sistema de Freud e Jung: Contribuições Mútuas e Contrastes. Dissertação de Mestrado em Psicologia. Fortaleza, Universidade Federal do Ceará, 2008. 176p.

JUNG, Psicogênese das doenças mentais. Petrópolis: Vozes, 1990.

JUNG, C. G. Símbolos da Transformação. Petrópolis: Vozes, 1995.

JUNG, C. G. Energia Psíquica. Petrópolis: Vozes, 1999.

JUNG, C. G. A Natureza da Psique. Petrópolis: Vozes. 2000.

JUNG, C. G. (et al.). O homem e seus símbolos. 2 ed. especial. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.

JUNG, C. G. O livro vermelho (Liber Novus). Petrópolis: Vozes, 2010.

JUNG, C. G. A prática da psicoterapia: contribuições ao problema da psicoterapia e à Psicologia da transferência. 16 ed. Petrópolis: Vozes, 2013.

JUNG, C. G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 11 ed. Petrópolis: Vozes, 2014.

LOPEZ-PEDRAZA, Rafael. Hermes e seus Filhos. SP: Paulus, 1999.

MCGUIRE, W. e HULL, R. F. C. C. G. Jung: Entrevistas e Encontros. SP: Cultrix, 1982.



ANEXOS:









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